terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Mar e as Palavras




A cada onda que passa
Cada verso que fica
Poderia rasgar o peito
Rasgar as palavras

Mas no fim não faria diferença alguma
Todo verso é inútil
Toda poesia é inútil
Mas também não faz diferença alguma

Poderia usar todos os pronomes
Tempos verbais que não definem nada
Palavras em cima de palavras
Tal como as ondas tem esta força intima

Ir já vindo
Ser já sendo
Dicotomias que Heráclito
Não poderia obscurecer com seu desvelamento

As serias cantam pra quem tem ouvidos
Perigo ignorado pelo viajantes sempre
Viajar é preciso
Mesmo carregando barris de petróleo nas tanques

O mar é vazio como a morte
Para quem caminha ele se faz liquido
Tal como os olhos moderníssimos
Quem navega sente a dureza de suas ondas

O impacto de seus cantos
Sempre a nos causar espanto
No breu profundo da noite
Que nos acalenta o peito

Deve ser assim … morrer

Não sei
Não ultrapasse a linha do indizível
Meu caro poeta
Tu só tem as metáforas ... nem tão afiadas assim

Então se segure como pode
As palavras não tem culpa
Nem sós culpado de usá-la
Mas faça-me o favor de não ultrapassar a linha

Porque?! Ah! caro poeta
A fronteira do belo e desejável
Não é como as linhas do estado
Ou melhor

Ela não existe
É apenas horizonte nos olhos dos que veem
Desejo na voz do que fala
Dança imperfeita dos sons e das palavras

Estão tentando superar o insuperável
Sonhar para depois da alvorada
A noite no mar tem qualquer coisa
Da morte a espreitar a vida

Insondáveis espaços vazios
Para baixo,d’água não sei
Para cima uma brisa afaga o rosto
Cansado deste marítimo

A vida não passa de uma só palavra
Talvez o mar tenha a resposta que procuramos
Talvez não há respostas a procurar
São só perguntas

E tudo isso não deveria me afetar
Ou melhor não me afeta
Se eu pudesse ver a afetação
Seria brisa no furacão do cotidiano

Vendamos então nossa própria morte
Em parcelas fixas de se viver a vida
Talvez ali esta brisa soe mas útil
Como uma canção de amor mal feita

Um desajuste de um sistema torto
Que deve funcionar
Tem que funcionar!

Quando o mar exigir seu preço
Eis que ei de perceber
Que sempre estive diante da morte
A enganar o estômago

Diante da vida sem vive-la
Mas vivi
Juro que vivi

Não importa
Nada importa
São só ondas

A bater no costado

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Insondável silêncio




Este pequeno som que ouço cá dentro
Dança harmonias para além deste eu insone
Vou me debatendo no silêncio
Como quem vive em parcelas da realidade

Este pouco caminho que resta
Este eu perdido demais na tentativa de ser
Eu mesmo
Perdido dentro das palavras

E quando vou a rua na tentativa de achar o outro
Encontro mas eu’s ocupados demais de si mesmos
Como tenho andado no silêncio
Aprumo os ouvidos espantados com tamanha primazia do eu

O outro virou mero acidente do mundo
Quantas vezes não me engasguei no silêncio
Quis falar mas sabia que era vão
Estão ocupados de mais neste ego coletivo

Ocupados em vencer na vida
O silêncio ainda é o melhor refúgio
A fala está próxima

Mas não veio ainda

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Duas rosas no tempo



Nem Preto
nem Branco
Nem Rosa
nem Cinza

Ah! Meu deus
Se há um Deus ... meu deus!

Eles estão esquecendo
Esquecendo das rosas
Esquecendo das cinzas     

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Natal

 

Quando criança
Achava que era a época que meu pai
Ficava mais feliz
E sempre me dava os melhores brinquedos do ano

Achava que as arvores de natal
Eram pequenos universos inexploráveis
E dava uma vontade de mexer em tudo
E não podia ... então eu a comia com os olhos

Quando criança
Adorava ver o menino Jesus
Deitando no seu berço de palha
E ele não estava triste como nas igrejas

Achava que os animais do presépio
Eram os brinquedos dele já desembalados
E quando ele chorava
Eu pega um escondido para nina-lo

Quando criança
No natal ... ouvia muitas vozes que não conhecia
Então, me calava para ouvir a musica
A musica que bate em cada peito que fala

Ouvia as histórias dos outros
Tendo a certeza de que eram minhas
Histórias de um tempo que não vivi
Mas presenciei todas pelas bocas cantantes

Hoje não tenho mas este natal
As arvores desbotaram no cotidiano cinza
Os brinquedos vejo nos olhos de meus filhos
O menino Jesus ... um símbolo de uma história minto antiga

Meu pai
Continua feliz no natal ... que bom!

Quando vejo os olhos de uma criança
Percebo um pequeno reflexo da memória
Sonhando para alem do possível
Olhando na falta o que não podemos ver

Deste poema se resta o obvio
É que o Natal ...

O natal ... é de todas as crianças

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mal-entendido



Foi um mal entendido
Apenas mais um dentre tantos na vida
E como todo mal entendido
Foi-se costurando no destino

De não entender nada
Mas supormos tudo
Na verdade foram as palavras
Estas desordeiras da linguagem

Não
Não bote a culpa nas palavras
Foste tu meu caro
Que imprimiste sem cogitar

Então aceite o recado dado
Mesmo que no silencio
Ou com certas inferências
Que jamais possa revindicar

Aceite o destino
Porque não tem outro a barganhar
Mas também não alfinetes de mais
Este ego de poeta sofredor

Porque poeta bom
É poeta morto
Assim aprendemos na escola
Não basta ser poeta de ego melindroso

E quanto ao mal entendido
Me perdoe de ter
Ficado o dito pelo não dito
A intenção pela coisa

Ps: Fica aqui registrado
Neste versos mal acabados
Todo o meu perdão por qualquer mal entendido
Futuro passado ou presente

Porque no final
Não sei usar das palavras
As vezes eu as uso
As vezes sou usado

domingo, 2 de outubro de 2016

Recado no Silêncio




Recado no silêncio

No desespero
Procuramos agir para remediar
O Irremediável
Aprendi

Que devemos seguir
Sempre no sentido da vida
Na corrente do rio
Que nunca é o mesmo

Mas teimamos em criar modelos
Organizados de como vencer na vida
Como descer o rio
Encarar a morte sem medo

Tal como heróis modernos
Plastificados no mecanismo do poder
Não interessa o destino
Se o fim absoluto existe

Ele que surgiu da duvida
E apropriou-se de todo cogitar
Da vida e tudo
Que nos rodeia

E chamamos de mundo
Porque não sabemos enxerga-lo
Quando nasci consciência
Tinha a certeza de que ele era eu

Não havia tristeza
Nem alegria
Era o que era
Eu transbordando de tudo

Eu passo profundo para o devir
Procurei o caminho
E não achei nada
Só violências e delicadezas no cotidiano

Não participo da ordem das coisas
Fiz o que pude
Mas o rio desce
Inexorável

Diante da verdade silenciosa
Desci ao político
Com a certeza dos querem algo
Mas eu não soube querer

Toda vez que pus palavras
No meu pensamento
Elas me escapavam
Olhei a minha volta

E lá vi os reacionários gritarem
Conformem-se
“O que é … é
E não vai deixar de se-lo.”

No extremo oposto
Progressistas sussurravam silenciosos
“Agarrem-se ao seu poder
De fazer o que quer de sua vida.”

Nas rendas imateriais do destino
Costuram-se tudo
Todos estão certíssimos
E completamente enganados

O caminho existe
Mesmo que não seja possível caminha-lo
O caminho é caminhar
E não saber o certo nem o errado

Não creio na verdade
Mas sei que existe

Então
Não perco tempo
Não ganho tempo

No fim
Duvido de tudo
Porque não sei nada

Não sou nada
Apenas mais um caminhante
Na estrada

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Fui poeta ontem


Ontem eu fui poeta
Escrevi aqueles versos eu sei
Hoje não sei não
Sempre me pareci poeta ontem

Hoje tenho qualquer coisa
De ordinário cotidiano
Pleonasmo desgastado
Ou talvez arestas desnecessárias

Talvez sim
Talvez não

Esta mudança de perspectiva
Me enjoa
Me encanta
Mas fui poeta mesmo ontem

Hoje não sei não
Ficar repetindo palavras
Trazer a cadencia para o fim
Na eterna costura dos versos

Não vai salvar seu poema não
Nem fazer você virar poeta hoje
Poeta mesmo foi ontem
Ontem ou ano passado não sei

Não interessa
Poeta que é poeta
Não é poeta hoje
Fui ontem não foi?

Ah! Então já sei
Poeta bom é poeta morto
Poesia de ontem que não se repete
Hoje ... não sei não

Tudo me parece um engodo
Uma formula torta
Para enquadrar o que não pode ser enquadrado
Então com esta chave

Que recebi de meu bolso
Porque quis é claro
Libero todos os poetas
Para serem poetas hoje

Liberto o ser poeta
Para todos os tempos verbais
Inclusive o gerúndio e o infinitivo
Coitados dos irmãos pobres

Poetar e poetando
Poetador e poetado
Libertem-se agora
E para sempre

Ah! Mas quando este versos
Forem de ontem
Serão versos de ontem
E nada mais

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Menino triste






Nas andanças virtuais
Por entre um link e outro

 Nos esbarramos
  Nos entendemos
Desentendemos-nos

Tudo meio que no silêncio
Intenso como a vida
Desinteressado como tudo deve ser

Dedico este poema a ti
Grande menino
E abraços poéticos




O mundo é cinza
Eu sei
A vida ... não faz sentido algum
Eu sei

E você também sabe
Ou melhor
Você sabe por dentro
Enquanto eu arranho a superfície

Parece que tu
não foste feito para se encaixar com tudo
És o diferente
De natureza distinta

E pleonasmo algum
Viciado ou não
Há de te diferenciar
Do mundo

Afinal és mais do que o suficiente

Transborda para alem de meus olhos
O sorriso é como uma gota
No oceano da cara
Prestes a derramar loucuras no cotidiano

Menino triste
Tristeza crônica
Cravada na pele
Marcas de uma guerra interna

É o eu discordando do que sou
O eu querendo dar cabo da vida
Da sua vida
Sem saber que no fundo não há fundo algum

Menino triste
Hoje ... acordei pensando em ti
Meu amigo das letras
Amigo virtualissimo

Quando a tristeza passar
Ou quando aprender a lidar com ela
Comemoraremos
A vitória de se estar vivo

Mas enquanto isso
Abraço menino

Até a próxima esquina

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um olhar na fresta



Não é porque
Coloco uma linha
Em baixo de
Outra

Que posso chamar
Isso
Ou aquilo
De versos

Nem que versos
Em baixo um
De outros
Possam ser chamados ... poema

Não porque contos silabas
E tenho métrica e cadencia
Poderei entrar no reino
Dos versos livres

Nem citando
Ou melhor inferindo
Clássicos de nosso passado
Para poder fazer um poema

Há de se prender para poder
Ser livre
Se esquecer o agora
Para o saber d´ontem

Dentro de obviedades
Como estas
Que se encontram a poesia

“Poesia
Tem tudo haver com minha felicidade
Com sua felicidade
Poesia
Tem tudo a ver com tudo”

Sim ... Mas nem assim há de se salvar seus versos
Uma poetiza moçambicana
Não vai salvar seu poema
Nem vai dizer qual lado seguir meu caro

Desalinhado
Tu ... desalinhado

No avesso da justiça
O juiz de sua causa
Não julga méritos nem formalidades
Por mais que alguns até o queira julgar

Não ... Não é possível
 Falemos as claras
O Juiz de minha causa
Julga o cerne da obra

Procura ali nos cantos profundos
Por entre as inferências das metáforas,
as vezes sem perceber é claro,
um centro que reúne tudo

em certos poetas
fica no indizível
e outros
condensam em palavras chaves

isso feito
esquarteja-se tudo
na busca infinita
de não se achar nada

Ah! Quanta preguiça
Os versos que são livres
Não ganharam a liberdade

O poema
Está nos olhos do leitor
Enquanto a poesia meu amigo

Derrama nas frestas de tudo



segunda-feira, 20 de junho de 2016

No quarto escuro



Hoje não sei
Talvez nunca soube de fato
Não sei ... Também se algum dia
Eu pensei ... tu me ouves?

Não nem me conhece
Porque? Não sei
Queria morrer eu sei
Mas não sei se seria a solução

No quarto escuro
Ilumina-se o silêncio
O mistério de não ter face alguma
Tenho face só para o espelho

Mas não me olho
Sou um nó desatado do real
Tu que me ouves
Me olha por dentro como jamais pude fazer

Um sorriso de uma foto velha
Fez você voar com os pés no chão
Pés descalço que não perde a objetividade
Ordinária poesia decantada do real

Ontem eu vi o mundo passar
E ele era cinza mais uma vez
Tal como aquele filme antigo
Que teve graça por não por ter graça alguma

Quantos minutos não passei aqui
Costurando esta solidão?
O silencio de domingo ... sim
É sempre mais profundo

Todos dormem para não ser
Dia útil
Eu inútil verso de natureza distinta
Saboreio liberdades neste quarto escuro

Quarto perdido na noite
De milhões de quartos
Só me resta o silencio
E a solidão

Amanhã quando o sol nascer
Mudo de ideia
Para voltar de novo
A este momento

Triste fim daquele que não sabe
Aquele que não se arrisca em saber
Espera cair em seu colo seu próprio desejo
Ele não deseja e não sabe desejar

Sim ele
Este outro que não fui
Mas sempre andou por ai
Vestido de mim a falar aquilo que eu não sabia

Eu surpreendido sempre
Não questionava
Seguia seus passos para adiante
Seus pés erravam no caminhar reto

Ele não perdoava
Há de ser normal
Para completar a normalidade
Encaixar no utilíssimo momento do espaço ... agora

Quando se olha a escuridão nos olhos
Quando se ouve o silêncios das palavras
Pode-se dizer sou livre
Preso na ignorância de saber