quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O suicídio cristão

Em pé no morro
sofre as dores do tempo
o sangue que corre nas veias
e no coração, artérias de borracha

Asfalto borracha e um tiro
que corre as ruas da cidade
os becos e avenidas
um podre coagulado

veias que entopem
no coração que pulsa parado
veias de um sangue que jorra
conta gota no capital diário

e lá está ele parado no morro
prestes a despencar
a tombar sobre as cabeças desatentas
e os bolsos que tudo pagam

e tombar é inevitável
quando se está decidido a pular
é o destino de quem sobe
de quem sofre

os pés começam a rachar
de a muito estar descalço
na dureza da borracha cinza
caminhando sempre parado

e devagar com uma leveza adiada
tomba ponta a cabeça
e no último suspiro fundo de esperança
eis que abre verdadeiramente os braços

pedaços
de cacos
metal
borracha
espatifam no chão

pulaste do último andar carioca
atrapalhando o transito
e as cabeças desavisadas

Agora o rio de riquezas ocas
encontra um vazio no céu da tarde
um morro e um pé rachado

3 comentários:

Alexandre disse...

Genial!!!!
Cara, como conseguiu criar essa imagem?
Numa época (final de ano) em que todos estão exaltando o "Senhor" você me despenca ele lá de cima; numa poesia que, mesmo se arrebentando, rachando, rasgando o cartão postal se faz bela!!!
De tudo que já li por aqui, este me conquistou por completo.
Parabéns!!

Alan André de Figueiredo disse...

Agradecido Alexandre

escrevi este poema no onibus. escutei uma frase avulsa sobre um carioquismo idiota. sobre braços abertos e algo do tipo "somos legais". Ai pensei no cristo sem cruz a vista de braços abertos.
cade a cruz?
e o sofrimento?
e as marcas na mão
uma limpesa na imagem
limparam o sangue e os buracos
o sangue e as chagas não são sagradas?
ah! isso é outra estória

Até Alan

Alexandre disse...

Ah, que ótimo, não sou o único que escreve em ônibus. Enfim, ficou muito bom, adorei!
Vou deixar meu msn..se puder, adiciona...abraço
alexandre.eells@hotmail.com