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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Oração ao amor virtual

 

Ah! Revoluções midiáticas

Me tire das normas da normalidade

Que eu possa ver os maestros de sonhos alheios

Regendo músicas sem saber tocá-las

 

Revolução midiáticas

Orai por aqueles likes

Que sejamos seguidos ... Engajados

Com a justa medida de nossas palavras

 

Que meu corpo seja julgado

Que minhas fotos sejam objetos de olhares intrigados

Que meus stores sejam vistos

E meus gifs desejados

 

Rogai por todos os seguidores

Que eu não perca a fidelidade numérica

De meus irmãos que não sei o nome

Que eu continue amando assim indiferente

 

Fingindo costume de felicidade

Que minha criatividade não definhe

E meus movimentos sejam copiados

Imitações criativas de agir no mundo

 

E por ultimo e não menos importante

Rogai por todos os haters eles não me entendem

Por minhas horas mortas de solidão e angustia

E que meu vazio continue criativo ... Amém

terça-feira, 14 de julho de 2020

A borboleta e o trânsito




parem o transito
olhem ali voando uma borboleta
dessas que voam felizes
tão cheia de sonhos
           
mas como é
metal
cinza
e duro
essa cidade

A borboleta coitada
deusa do acaso e do improvável
vai ser esmagada
no transito, cinza metálico que passa

dou alguns passos
na minha solidão
de pedestre

o sinal abriu
abriu também no ar
o som de uma buzina apressada
e a borboleta ali voando
por entre os motores ligados

Ai que agonia!
Fecho os olhos pro pior
aperto o passo cabisbaixo
triste fim da borboleta

e por um instante
desses que o coração não se aguenta
olho pro lado
vejo a borboleta no alto
e acima dos carros e do chão

voando ao acaso
maestra da desarmonia
do cimento
borracha
e metal

Ai ! De novo uma agonia
um caminhão se aproxima
paro esperançoso na calçada
-         levante voo minha amiga

e no instante do acontecimento
no limite do agora pro que ainda vem
um para-brisa chapado
levou minha frágil deusa do acaso

Ah! se já não bastasse a morte
da borboleta solitária
seu assassino era um caminhão de flores

que ironia!

A cidade que compra flores mortas
não esquece de matar
borboletas vivas
sujando o vidro transparente
com matéria morta
que não vale
nada!



OBS: Este poema foi postado originalmente em 2012.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Amor virtual





Aquela curtida nas fotos
Uma piada bem comentada
As frases pseudofilosofias
Que nos faz sentir bem

Você está sorrindo de fato?
Não sei.
Esta tela não permite saber
"KKKK" não me diz nada

Como são cruéis estas onomatopeias
Me pego contando os ‘’K’’
Para saber o nível do teu sorriso
Contando os dias daquela resposta perdida

Outro dia vi um amigo comentando
"KKK" sem esboçar um sorriso
Ele me disse com cara mais deslavada
Que sorriu para dentro

Incrível a capacidade do ser humano de me surpreender
Sorrir para dentro
Chorar para dentro
Não que isso não seja possível é claro

É como se tornou comum
Silenciosos zumbis na sala de espera
Vez o outra um sussurro ... talvez de um meme
Perdidos olhos para lugar algum

Neste engano eis que vejo
Um jovem casal chegando
E tenciono escrever o contrario
Mas não posso

Logo se sentam
E cada qual no seu aparelho
Amam-se pelo espaço que não se tocam
Virtual amor dos solitários que amam a si mesmo

Reparando bem
Talvez seja um relacionamento virtual
Não sei ... como reconhecer os casais?
Ah! expectativa gera presunções

Talvez nunca soube reconhecer casais
No fundo é desnecessário saber reconhece-los
É arte antiga
Que está em desuso

O Amor agora é virtual
Está no espaço desta tela
Entre os olhos
E o desejo de que tudo seja real

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Quando se deve falar



Aquele que fala
Só pode ouvir no silencio
Seus gritos foram abafados na multidão
E os versos estão cada dia mais distante

Aquele que fala
Fala pela boca do tempo
Esta ordem de se usar as palavras
E ser por ela usado

Quando acordar amanhã
E ontem for esta necessidade
De acontecer como devia
Um passado imemoriável

Ele jura que viveu
Como quem vive assim
Despretensiosamente
Simples como uma borboleta

O que resta é este estar vivo
As expectativas e os sonhos
São só palavras no dia a dia
Seus sentidos são tortos

As palavras são tortas
Quando o mundo fala
Calemos e observemos o silencio
Que desprende deste coro desafinado

Um gato falou ... que se foda
Bom dia no meio do dia
Acordaram para dar os seus bons dias
Antes mesmo do café

Ninguém põe reparo no seu bom dia
A maquina urge urra e sussurra
Tudo ao mesmo tempo agora
Como se amanhã não fossemos

Um vídeo engraçado está carregando
E parou assim no meio
Nem foi tão engraçado assim
Mais um piscou na tela ... mais um numero que temos

Não ... não temos nada

Ah! mas tem o grupo da família
Grupos do churrasco daquele dia
E não acabou até hoje
Grupos dos amigos

Grupos de poesia que mal abro
Poeta adora copiar um bom dia
Apago tudo antes mesmo de ler a memória está cheia
Estou cheio de tudo e repleto de nada

Estão todos aqui comigo
Mas não vejo ninguém
Só a solidão de uma sala de espera
O voo atrasou

Mas que se foda-se
Não foi isso que gato falou?!
Perdoe o poeta sua licença
De estrupa o português sozinho

Ahn um vídeo do Charles Chaplin
É ele aparafusando a maquina
Enquanto aparafuso minha vida
Ele não sonhava, mas sabia

Uma corrente de deus
Uma piada não lida
Um meme para alegrar a vida
Filosofias instantâneas de como vive-la

Desligo esta tela ... e vou viver
Abro um bom livro
E vou compartilhar a solidão

Comigo mesmo

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Apenas um feriado





Ontem teve de tudo
Alegrias e tristezas escorreram pelo cotidiano
Ontem teve de tudo
A voz que foi morrendo e uma cantora emoldurando a noite fria

Ontem foram três dias
O tempo que foi passando
A vida vai correndo
Sempre ontem sempre poesia

Eu que nasci ontem
E sou tão velho quanto o universo
Eu que não sei nada
E tenho uma ansiedade de saber tudo

Barroco ... moderníssimo
Vazio de alma e repleto de soluções pra vida
Ontem reencontrei muito do que havia perdido
E vi que renascer não é tão difícil

Mas foi ontem que toda autoajuda morreu
Formulas tortas de vencer na vida
Minha história não pode ser a sua
Que cada pó cuide de sua poeira

Ontem vi olhos que riem para dentro
Uma raridade neste cotiando cinza
De almas vazias
Ontem me julgarão certo e sem poesia

Não há erros em pensar no futuro de ontem
Porque ontem foi e continuará sendo
Ontem vi a força e a vontade de viver
Discutindo trivialidades

Ontem ... quando dei por min
O feriado acabou
E fiquei reflexivo

A remoer coisas de ontem

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Elegia a Sócrates




Sentado no caminho ele pensava
Queria por em versos
Mas não sabia nada
Sua mão o desobedecia

O nó que o impedia
Esta nas almas dos homens
Incertezas que dói para alem dos justos
E os versos e as rimas nunca foram solução

São relicários de um tiro no peito
No centro de seu próximo passo
E ele fala de si como se fosse do outro
Porque assim lhe parece mais puro

Utopias de um pé que caminha
Porque não sabe caminhar
E atire o primeiro olhar
Aquele que sabe onde pisa

Mestre ... tu que era o homem
Mais sábio da Grécia
Não sabia

No fim
São só palavras diante da vida
ou um querer viver
ou morrer quem sabe

Não sei
Teu silencio nos guia
Assim como as cordas
Que seguram tudo onde deveriam estar

E ele se levantou mais pesado
Mais velho
O caminho não era o mesmo
A vida não era a mesma

O certos estão felizes
Enquanto certos
As esquinas ainda dobram
E não estar certo ... talvez

Seja a única certeza

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Carta aos portugueses



Olha quem vem lá!
Na contramão das utilidades contemporâneas
Desponta a saudade nas pompas de um futuro prometido
Que definhe o ego nacional

Sonhar em demasia
Viver para com o passado
Não resolve nada
É porque nos olhos da memória ressoam ecos

Sons de um passado triunfante
Ecos conservadores curtidos em sangue colonial
Olhos embaçados de uma saudade torta
Olhos engolidos pelo mar da ganância

O velho mar não perdoa
Seus filhos habitam terras alheias
E vocês andam a chorar saudades sem fim
Acordem oh Portugal adormecido

Acordem meu irmão mais velho
Minha mãe zangada
Meu pai bonachão e repleto de mansidão
Para ... tudo

Acordem
E percebam a nova colonização
Colonos sem pátrias
Colônias sem fronteiras

Ou como disse o poeta moçambicano
Recolonialismo
Não nos falta gente e palavras
Falta-nos entendimento e coragem

Falta-nos união
Deixemos a entonação para os puristas
As palavras ainda são de nossa mãe
Colemos o ouvido no entendimento

Se esta carta chegar ao velho continente
O que duvido
Perdoe-me o estilo
Mas mande um abraço na tia

E um beijo na velha sombra da saudade

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Aos poetas


O poeta é aquele que caminha nas sombras das palavras
Degusta cada verso
Cada estrofe
Cada metáfora

O poeta destila do silêncio sua própria música
Música interna das palavras
Nas rimas ele é flui desinteressado
Como o pulsar da vida

Os nossos poetas tem o silêncio é a saudade
Uma solidão fundada pela História
Feridas profundas
Lavadas nas águas de um oceano Atlântico

Nossos poetas são amazônicos
Andinistas, pantaneiros, sertânicos ...
E toda adjetivancia
Que não se substantivou

Nossos poetas são poetas
Comum, regulares geniais
Poetas do lado de cá do Atlântico
No avesso da história

Ainda poetas

Inúteis e indispensáveis

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Correndo pra vida


Corre que o ônibus já vem
Corre para sentar no lugar que te serve
Corre os apressados em vencer na vida
Corre corre dia a dia

Na primazia do um
O dois é secundário por natureza
O três coitado nem se fala
Se perdeu nas quinas da realidade

E continuam correndo
Como se o correr endireitasse o tempo
Ajuste de uma engrenagem fina
Eles querem a sua vida

Apenas em horário comercial
O resto que sobra
Que corram pelas ruas e avenidas
Se escondam nos becos e nos subúrbios

Mas segunda feira
Dia útil
O relógio não perdoa
Então corra que o tempo é curto

A vida é curta

Ah! Um dia ainda hão de acordar deste pesadelo
E quando este dia chegar
E as pernas pararem de correr nas ruas e avenidas

Irão perceber
Que quem corre não caminha
Quem olha não enxerga

Quem ouve não escuta

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Agonia no silêncio


Quero falar mas não posso
As palavras não traduzem
Este silêncio

Quero falar mas não posso
Misturo política partidária
Com o meu cotidiano roto
Devidamente martelado

Quero falar mas não posso
Estas infinitas tardes solitárias
Que aprumam estes versos em que caio
Destilam o silêncio desta agonia

Quero falar mas não posso
Vivemos tempos obscuros e voláteis
Falar por falar não resolve nada
Nem clarifica as pedras da estrada

Quero falar mas não posso
Os verbos engasgam em minha garganta
Substantivos não delimitam as substancias
E voaram todos os meus adjetivos

...

Assim
Neta tarde em que quis falar
Chorei silenciosamente

Ciente de minha profunda solidão

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Devaneios poéticos

O subjetivismo de minhas palavras
Esbarra entre a certeza de não se saber nada
E a ciência que tenho eu do mundo
Assim vou passando por estes versos

Versos sem fundo
Tal como o saber de tudo
Perdido no fundo do armário
No fundo desta metáfora ruim

Talvez a vida seja
Uma metáfora ruim e sem graça
Este eu que escreve
Hoje não esta bem

Não pode estar

Sigamos os olhos então
Eis que deixei o declive do dente da engrenagem
Machucar meus braços
Olhemos ao sol

Afinal tudo não se reduz a palavra
A consciência de se estar consciente
É o maior engodo dos iluminados
Ratos girando na esteira da perdida ciência

Uns gritam bem alto
Como se gritar aliviasse a verdade do peito
"somos nós os novos deuses"
E quem discordar será tachado de retrogrado

Eu que não sei falar se não de mim
Eu que jamais pulei o muro defronte minha realidade
Não posso lutar com estes versos
Deslealdades realísticas

Eu não sei gritar

Pensando bem não sei lutar
se não para mim
Um egoísmo de saber só para si
O louco eu perdido cá dentro

Sonhando sozinho
Tal como uma criança
Olhando o muro defronte
Não vai pula-lo

Mas já pulou e não gostou do que estava alem
Por isso volto choramingando ilusões
Contemplou o muro sonhando
E sonhou de mais meu menino

E voltou a dormir
O sono perpetuo
Da ignorância e da inocência
Porque saber que sabe é um estado de espírito

Uma afirmação metafísica
Deixemos os profetas cuidar disso
Cuidemos de nossa vida
Porque o caminho é curto


E são muitas as pedras dessa vida

Audio

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Carta do Ultimo Metafísico

A alma é um instante do querer
Ou melhor do desejar
A alma flutua no belo instante do desejo
Não na consumação da realidade

Nossa alma é moribunda de nascença
Não há Deus nem nada
Só este profundo vazio
Recheado de discursos vãos

O cético venceu meu camarada
Somos números
Somos nada
Um pequeno ponto na História do mundo

Que no fim
Acabará em silêncio
No profundo silêncio da morte
E boa viagem

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Tecnodepressivo

Tudo funcionando
Cada ponto na exata cor da figura
Vida de silício solitária
Com uma necessidade de acontecer
                                                                 Alem

Na tela
Uma imagem

Um não lugar
Que carrega minha existência
Carrega uma imagem que não é minha
Um eu que não existo

É sempre um quando
Uma necessidade momento do riso
Tropeço nas palavras
E no filete da vida
 
O grande mural vai passando
Na mesmice programada
Comentários de uma vida que não vivo
Uma depressão rasa

Ligeira tristeza
O suficiente para levantar da cama
O sol vai passando
E minha vida vai escorrendo nas pontas dos dedos

Viva La vida
E o tecnodepressivo

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Uma loja no shopping

As verdades descolam das paredes
 E caíram em meu colo
Enquanto olhava as pessoas
Em suas vidas diárias
 
As roupas
Todas querem olhar a vitrine
Todas querem ser
Vestidos de manequins
 
Boa tarde senhora
Fique a vontade
É tudo seu
Basta comprar
 
Eu quero um short
Uma blusa quem sabe?!
Entra senhora
Temos varias cores disponíveis
 
Não sei?!
Bota a mão no cabide
Experimenta
Desfila flutuando
 
Sua bolsa é nova
Toda vendedora põe reparo
Tubaroas da venda
E do varejo
 
Boa tarde
Um sorriso maquinal
Boa tarde
Posso ajudar o senhora?!
 
Sempre se pode ajudar
É tudo tão lindo
Mas este não caiu bem
Sinceridade carnívora
 
Experimenta este
Ah! este sim!
 
Mentira socialmente aceita
O sol lá fora queima
Aqui você está a salvo
É tudo sempre o mesmo
 
Um sorriso
É minha vez não vendeu
Perdeu
Roda a roleta do varejo
 
Esta eu passo
Mal vestida
Vou lá no estoque
Já volto querida
 
Eta má sorte
Quero ela de volta
De volta minha linda?!
O que a senhora deseja?
 
Nunca fui de fato
Vamos juntas
Tal como princesas sem reinos
Folhear felicidades de panos coloridos
 
Quanto é este?
O justo preço minha querida
Quanto vale sua vida?
E sua cresça nesta aparência abatida?
 
Tudo isso
Já basta minha senhora
 
Volte sempre
Estaremos aqui
No templo da futilidade
Prontas para encurtar o seu sonho

terça-feira, 23 de julho de 2013

Manifestações da minha solidão


Protesto contra minha autoridade
Contra este eu supremo do ego
Quem há de entender este ditador?

Protesto contra a solidão programada
Anúncios de praticidades alguma
Quem há de viver assim tão só?

Protesto contra as maquinas auto suficientes
Mentiras coloridas pela inocência
Quem há de ver todas as fotos?

Protesto aos que não sabem protestar
O grito não resolve tudo
Quem há de me condenar?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O tempo de Secchin

Poemas dedicado a Antônio Carlos Secchin
O seu dizer e redizer
é uma aventura para o portal do tempo e do
ser


A criança a espiar a janela
a ver o tempo amarelar tudo
por dentro das molduras
outros mundos
outras pulgas

No tempo de vovó
não tinha esta saudade a corroer
o feijão era bom
como nunca voltará a ser

nesta evolução de lugar algum
Eis que ficou a criança
a espiar tudo por de traz dos óculos

Dentro da criança
todos os mundos
todas as pulgas

E o mundo ficou a espiar a janela
vendo a criança amarelar tudo
dentro de vovó
ficou só a saudade do feijão

no mesmo mundo
nas mesmas pulgas

e tudo sempre foi sério
menos as pulgas
que eram tudo

quarta-feira, 20 de março de 2013

Depresão

Se fosse outro
Outro que nem Pessoa tivesse sonhado
Talvez fosse feliz

Bem
Eu sou feliz

Mas as vezes caio pelas tabelas
E me perco em lagrimas
Nada poeticas

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A força do agora

O trabalho
A culpa
Ausencia estampada no rosto
Refletida no choro da criança

Quem há de curar o tempo?
Quem há de viver a vida?

domingo, 14 de outubro de 2012

O hotel

Entro no quarto como se fosse meu
o velho hotel perdido no espaço
vou jogado a mala com uma intimidade
de cheiros e abrir gavetas

arrumo meus pertences
passageiros pertences
no velho quarto que é meu
e de todos que aqui passaram

e passo assim despreocupado
que eu volto eu sempre volto
quantos verso não fiz nesta mesinha?
mesa velha e carcomida

quantas pessoas não vi passar
nestas janelas da vida?
lá estava um poeta
a espiar o dia

ah! esta cama arrumada
escondendo no branco lençol
vida e mais vidas passadas
dormidas ou sonhadas

e me sinto em casa
uma casa minha e de todos
a casa velha que não tive
os degraus de uma antiga escada

não troco este quarto por nada
nem hotel de cinco estrelas novinho

não tem cheiro de vidas passadas
nem identidades manchadas na parede
não é quarto
muito menos morada

estar em hotéis velhos
é quase estar em casa
sempre há vida pulsando
nos corredores e nos carpetes

pego o telefone
disco o numero da recepção
como quem liga para um velho amigo
uma voz rouca e conhecida

poi não?!
E eu translocado e contente
digo:

Ei amigo
 
linda esta vista lateral da janela
uma rua quieta e escura
iluminada pela luz da lua
a luz branca nas faces das pessoas que passam
me faz sentir a vida
não achas?

O senhor quer mudar de quarto?

Não jamais!

O senhor deseja mais alguma coisa?

Calei e percebi o absurdo
o absurdo de se estar sozinho
de amar a intimidade das coisas
perceber as pequenas coisas deslocando da vida

e lá no fundo
 
senhor

senhor

desliguei o telefone
tomei um belo gole de água
desarrumei a cama
e comecei a ler um bom livro

quarta-feira, 16 de março de 2011

Parede de pedras

É uma parede de pedras
não é o muro que recebe lamentações
mas é uma parede de pedra
não é que os Judeus tem razão

nada melhor que uma parede de pedra
para dizer, não
aqui você não passa
aqui é o fim de seus passos

lamento
mas não vou lamentar ante o abismo
escalarei a parede de pedras
e verei o que se esconde no horizonte

pedra em cima de pedra
passo a passo
vou levando minhas pedras
vou fazendo meu caminho de pedras

caminho perdido
caminho de pedra onde não vai ninguém
pedra a pedra
levanto o muro, o meu caminho de pedra

quem tem ouvidos que escute
pedras rolando o abismo
singelas pedras que rolam o abismo
e fecho os olhos

um respiro ultimo
e pulo meio ainda descrente
não sei que realidade vivo
estou prestes a testa-la pelo absurdo

as aves que me perdoe
mas voei com mais destreza
e como Peter na terra do nunca
voei livre pelo as pedras de meu caminho

mas como é perene voar com pedras no peito
a ar que te segura
um dia deixa de te sustentar
e caio com pedra segura de si

uma queda firme
queda do real que me engano
pedra do muro de pedra
pedra que pulsa no peito
grande pedra
mãe pedra
ahaha!!!!
me vem a realidade crua

estou caindo
prestes a encontrar o inevitável
não voei se não por alguns instantes
bons instantes aqueles

eis que a grande pedra se aproxima
lá vem o chão
como verdade simples e una
uma grande pedra viva

ahahahaha!
Não estou pronto ainda
e quem estará pronto um dia?

Eis que acordei suado
mas leve como uma pluma
e voar
nunca mais!