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sábado, 13 de junho de 2015

Referência Poética


Com os olhos de poeta
Varri a modesta sala da memória
Eis que percebo sentado num canto
Um velho cego de amor e sua flor murcha

No centro da sala
Um poeta que revira as novidades
Como um folhear de revistas desinteressado
Vai despetalando os versos com soberba indiferença

Mas ao canto a esquerda
Vejo um poeta que se engasgou
No mais sublime ódio de mulher
E fez do seu silêncio a espera de acontecer alem

Mais ao fundo
Um poeta recado
Que fez do cotidiano
A superação de uma poesia fracassada

Sentado ao meu lado
Preso num espectro solar
Uma figura emblemática e intransponível
Ele sorri num misto de prazer e desdém

Na sala vizinha
Ouço os gritos abafados de desconhecidos
Ignorância necessária para viver a vida
Como se tira o viço das pedras ao pupilas

Nessa costura intima
Vou cravando o meu destino
Nodoas irremediáveis do porvir
Frases curtidas no sol de minha ciência

Todos eles são outros
Mesmíssimos outros neste eu perturbado
Mas não os trago no bolso da persona
Nem os sinto na fonte de minha humanidade

Eu os sinto nos olhos
Como velhos amigos
De uma amizade só minha
Como são solitários os poetas

Como são delicados os silêncios
Por entre os versos
Como são inúteis

E necessários todos os versos

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quando tudo começou 5

A epopeia de janela
deste mundo em que me encaixo


E do nado fez-se a luz
como que do tempo
fez-se a musica

O tempo dançando com a musica
e o vento com a chuva
Arvores que bailam a valsa do vento

Quando o tempo ainda era jovem
o amor reinava entre os vivos
e Orfeu andava livre sem razão
sem bolso do tempo perdido no sono

os vivos descendentes de Arão e Cesta
envelheceram a face do tempo nos olhos dos vivos
e o tempo passou cada vez mais rápido
cada vez mais solitário

Orfeu escravo do tempo moderno
não envelhece tão facilmente
passa a mão em nossas cabeças
como quem diz um dia passa

Orfeu não senti dor
nem dó
nem pena de si mesmo

Orfeu é deus do sono
dos sonhos
dos olhos que se abrem do real
no avesso das retinas fatigadas

servo do tempo
tempo de maquinas e precisão
tempo lobo do homem
espelho concavo de si

o que fizemos com O tempo?
Os relógios que sol algum acompanha
que luz não penetra
nem sombra de Platão teremos

e Orfeu canta sozinho
nos bosques onde borboletas amarelas
voam o belo voo
das borboletas solitárias

velhos moinhos
livros e quixote na estante
bainhas de armas vazias
e nó na garganta

gerras de um mundo sem perdão
gerras de minha própria pátria
pátria amada
entre os mundos um só mundo

minha pátria terrena
pátria mundo
cidadão do mundo
e guardião das coisa terrenas

o que fizemos com O tempo?
o que fizemos com nós mesmos?
No mundo em que me acho
em encaixo com peça usada

olhos de um tempo sem perdão
tempo de meus olhos que endurecerem
e perdão não mais carecer
e fiquei cego perdido e solitário

agora sou escravo do tempo
meu nome é Orfeu
senhor do sono e do acaso
filho da borboleta com esperança

cria de um mundo só
das asas faço voar a cabeça
das patas encravo na terra
com a certeza de que vai melhorar

sim
acredite criança
vai melhorar

Quando tudo começou 4

E do nada fez a musica
como que das cores a visão

No principio era o nada
do caos fez-se a luz
da luz a visão

No principio era tudo
do caos fez-se escuro
do escuro o contraste

não há luz sem escuridão
não se supera os extremos

na luz vive o caos
no escuro vive caos

meias partes
do início de tudo

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Quando tudo começou 3

E da musica fez-se a poesia
assinatura do poeta
ente que anda grilo que canta
esperança zinindo cá dentro

A esperança quando juntou-se a lama
e criou os seres viventes
deixou sua marca profunda
que no silencio fez-se a musica

a musica da cabeça do ser humano
somos um ritmo que nos marca
um passo que passa
um som que nos embala

a batida no peito
sorrisos reguladores de frequência
e deste caos e barulho ei que surge uma criança
que une todos os viventes terrestre

Um menino meio arvore e peixe
meio isolado e dono de todas as falas
responsável pela união das coisas
eis que amor brotou da terra

Sesta e Arão
Arão e Sesta
descobriram no colo desta criança
um presente de suas mães

uma flauta que une os sons
o voo da borboleta
com grito constante da esperança
a flauta tinha duas metades

Arão e Sesta pegaram as metades
e dividiram um para cada
formando os sexos que se encaixam
e o amor reinaria na mundo

entre o ar e a terra
paira uma distancia
que separa as partes da flauta
que jamais toca sozinha

o espevitado amor sai em disparada
pega mão de um e o leva até o outro
sorrisos inocentes povoam sua face
enigmatística de amar as vezes sozinho
mais amar

A cada ente na terra
descendente de Sesta e Arão
exite a mão pequena do amor
Puxando as metades da flauta

A busca de Sesta
A busca de Arão
duas metades que se encaixam
formando o uno e a perfeição

E do caos fez-se a luz
mas antes não era escuridão

E da esperança fez-se o escuro
como os zinidos na cabeça dos ser humanos

E assim surgiu todas as coisas

Quando tudo começou 2

Quando a borboleta
filha do Caos com a Deusa mãe
nasceu

a lua mudou de forma
as águas quebram nas pedras

das pedras fez-se areia
das águas fez-se mar
na terra formou-se barro
e a esperança a grilar

nasceu a deusa do acaso
a borboleta nasceu no ar
regendo coisas de dentro
que de fora movia-se

a esperança nasceu do nada
ao nada voltou
um ser único
que brada seus grilos constantes

pouco a pouco
o ruido fundo da esperança
atraia a enorme borboleta amarela
junto a terra borrosa dos pântanos

duas forças se uniram
alunas futuras de lebos
amaram-se profundamente
como a mistura no barro

e desta união
surgiu Aratão único filho
Nascido do barro e sem costelas
primeiro humano a pisar na terra

Sobre Aratão

Enquanto nascia destas forças
a deusa do acaso amarela
penetrou tão profundo na terra
que hoje ela nasce sem asa

um ato de amor materno
transfigurou suas asas
nas costelas de seu filho

e no ultimo sopro de vida
arrastou-se fora do pântano

E deste ato puro surgiu Sesta
Irmã do peito de Aratão
que amaram-se
criando todos os viventes

Hoje que o tempo é passado
e a história é escrita

toda vez que um que ser que se arrasta
pousa em um galho de arvore
refazendo sua costelas de asas
um humano deve voltar ao barro

quando a Deusa sai de seu ninho
gota a gota ela seca a água do barro
e rege todos os movimentos do mundo

Sobre Sesta

No início eram dois
que a terra unia em seu amago
com a união de duas Deusas
do androgeneo fez o sexo

O grilo da esperança
afundou no barro
dividiu-se em duas parte iguais
e cantou dentro de Aratão e Sesta

e o barro levantou-se
A deusa do acaso criou casulo e costela
para ambas as partes
e O Grilo e A esperança
se dividiram em iguais que se encaixam

A esperança formou Sesta
O grilo formou Aratão
pedaços de uma mesma parte
de duas Deusas iguais

Sobre a morte da esperança

Uma esperança nunca morre
não como conchemos a morte
deste lado barrento da morte

Quando canta a cigarra
ou o grilo no mato
um ser nasce

A esperança é mãe, filha, filho e pai
de todos os viventes
e todos feitos de barro
como os humanos

Se um dia morrer a esperança
o barro não mais levantará

e da musica fez-se o silencio
como da fala fez-se o nada

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Quando tudo começou

E do silencio
fez-se a musica

como que do nada
fez-se a fala

o tempo riscou
na pedra da fala passada
seu amor final
de uno e do nada

oh senhor de barabas branca
humanizemos!

Este é Senhor do tempo e do mar
e das distancias da saudade

é um velho que carrega a tira colo
as nostalgias do sono

Orfeu é seu criado filho da borboleta
com a esperança sim duas mulheres e uma cria

O sono penetra devegar
baila a valsa do agora
abre os olhos internos
de pálpebras que não piscam

não piscam jamais os olhos de dentro
e Orfeu tem um irmão mais velho
este mais lento e profundo
que toca-nos dia a dia

o belo travesti negro da morte
não há nada após seus olhos fechados
apenas um grande poço obscuro e profundo
onde caímos em nós mesmos

é quando as palpebras de dentro se fecham
ou piscam quem sabe
não tem lado após os olhos de dentro
nem face nem fronte

é um espectro de si
um espelho fosco de narciso
A morte é o senhor do ridículo
retorno dos deuses

E quando nasci
junto com este universo
sabia todas as coisas
eu erá todas as coisas

da força primeira não sei
precede o silencio de minha fala
mas sei que sou tão velho
como todas as coisas que conheço