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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Da verdade


 Deusa incognoscível
Quando ela fala os justos se calam
 
Não é bem tarefa do poeta
Dizer a verdade
Ao contrario
Ele inventa espelhos de si
 
Para enxergar outra verdade
Um paradoxo tão encantador
Que ele não resiste em ser o mentiroso
Com bons propósitos
 
Um sóbrio na plateia
Poderia se levantar e gritar bem alto:
“Blasfemia!”
Como não há plateia
 
Só esta folha em branco
O poeta controla seu sóbrio e seu ébrio
E como aqui não farei um tratado
Ou criarei expectativas e realidades
 
Farei jus a poesia e sua semelhança com a verdade
Sim a poesia tem verdade
Tirando algumas exceções não é a dos filósofos é claro
A verdade é irmã gêmea da poesia
 
Duas deusas nobres que olimpo algum há de ostentar
Elas vagam por entre os mortais
Como a simplicidade no sorriso infantil
Uma rosa que sobrevive na beira do asfalto
 
Elas abrem o caminho dos ébrios ao lar
Transforma um olhar em amor
E criam o amor como se fosse seu filho
Deusas poderosíssimas que negam o poder
 
Quando a verdade vier a minha porta
Com a notícia terrível e inexorável da morte
Honrarei seu nome como último ato
E que meu silencio seja enfim esquecido

sexta-feira, 25 de março de 2011

A metafísica de Platão

Eis que disseram que nada sei
e todas as coisas humanas transbordaram
entre a taça e o veneno
agora sou tudo até o cosmo tem pedaços de mim

pedaços de minha ideia de cosmo
uma alma que perpassa o inteligível
que já soube dos mundos que não sei agora
uma alma que me liga a tudo que existe

cavalos suprassensíveis
eis que toda criação
e não-criação
deriva do mundo inteligível

nas sombras vivemos
da caverna não saímos
sombras são meus corpos
na luz o verdadeiro princípio

as correntes, as amarras
não me deixam levantar
o movimento é necessário
Parmênides que me perdoe!

Não me engane o pensamento
por trás da ave o voo
da flecha a chegada
e do ser minha alma

sim, a mesma que preferiu
beber do veneno
à mentir a sua cidade,
queridíssima cidade,

cidade das sombras
das luzes que não se vê
da verdade velada
entes que não consigo abandonar nas sombras

ideias perfeitas demais
sobrando no mundo das crueldades humanas
e ele sonhou com o futuro
livre de amarras e sobras

amarras sensíveis
demasiadamente sensíveis
e dividiram o mundo em dois
em espelhos foscos de narciso
dois mundos
e uma alma

no meio o mundo lunar
homem não é casa e jamais será sapato
o que é, é!
Mas isso é a próxima estória

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Quando tudo começou

E do silencio
fez-se a musica

como que do nada
fez-se a fala

o tempo riscou
na pedra da fala passada
seu amor final
de uno e do nada

oh senhor de barabas branca
humanizemos!

Este é Senhor do tempo e do mar
e das distancias da saudade

é um velho que carrega a tira colo
as nostalgias do sono

Orfeu é seu criado filho da borboleta
com a esperança sim duas mulheres e uma cria

O sono penetra devegar
baila a valsa do agora
abre os olhos internos
de pálpebras que não piscam

não piscam jamais os olhos de dentro
e Orfeu tem um irmão mais velho
este mais lento e profundo
que toca-nos dia a dia

o belo travesti negro da morte
não há nada após seus olhos fechados
apenas um grande poço obscuro e profundo
onde caímos em nós mesmos

é quando as palpebras de dentro se fecham
ou piscam quem sabe
não tem lado após os olhos de dentro
nem face nem fronte

é um espectro de si
um espelho fosco de narciso
A morte é o senhor do ridículo
retorno dos deuses

E quando nasci
junto com este universo
sabia todas as coisas
eu erá todas as coisas

da força primeira não sei
precede o silencio de minha fala
mas sei que sou tão velho
como todas as coisas que conheço