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quarta-feira, 24 de junho de 2020

Amor virtual





Aquela curtida nas fotos
Uma piada bem comentada
As frases pseudofilosofias
Que nos faz sentir bem

Você está sorrindo de fato?
Não sei.
Esta tela não permite saber
"KKKK" não me diz nada

Como são cruéis estas onomatopeias
Me pego contando os ‘’K’’
Para saber o nível do teu sorriso
Contando os dias daquela resposta perdida

Outro dia vi um amigo comentando
"KKK" sem esboçar um sorriso
Ele me disse com cara mais deslavada
Que sorriu para dentro

Incrível a capacidade do ser humano de me surpreender
Sorrir para dentro
Chorar para dentro
Não que isso não seja possível é claro

É como se tornou comum
Silenciosos zumbis na sala de espera
Vez o outra um sussurro ... talvez de um meme
Perdidos olhos para lugar algum

Neste engano eis que vejo
Um jovem casal chegando
E tenciono escrever o contrario
Mas não posso

Logo se sentam
E cada qual no seu aparelho
Amam-se pelo espaço que não se tocam
Virtual amor dos solitários que amam a si mesmo

Reparando bem
Talvez seja um relacionamento virtual
Não sei ... como reconhecer os casais?
Ah! expectativa gera presunções

Talvez nunca soube reconhecer casais
No fundo é desnecessário saber reconhece-los
É arte antiga
Que está em desuso

O Amor agora é virtual
Está no espaço desta tela
Entre os olhos
E o desejo de que tudo seja real

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Poema à Ioná




Naná quando criança me chamava de Lam
Ela sempre ria de minhas palhaçadas
E era de uma sinceridade
Que assustava os adultos e os encantavam

Tinha uma seriedade amena
Uma força de encarar o mundo tranquilo
Que só as crianças geralmente tem
E sua gargalhada destruía nossas melancolias

Sorte daquele que já viu Naná sorrir
Paz nos corações aflitos
Ultimo refugio nas covas inocentes do sorriso
Asas protetoras em um mundo tão cruel

Ah! O mundo ... O mundo é grande e pequeno
E com propósitos e predicados
Que nos afastam ou aproximam
Quem vai saber do até quando ou até onde?

Passei anos distante minha amiga
Muitas águas passaram no rio de nossas vidas
Acompanhei de longe e torcendo
Por aquela simples torção que quase levou o mais belo sorriso

Quando Zé Galinha nos deixou
Lembro de estar na distância de uma varanda
Fumando um cigarro pensando que o mundo ficaria mais triste
 E não iria ver mais aquele abraço de lado e seu largo sorriso

Muitas águas se passaram minha amiga
Hoje nas contingências do mundo
Nos aproximamos de corpos e copos
E tenho a honra de ver seu sorriso

Você me ensinou que o perdão
Precisa de tempo pra perdoar
Que a atenção com os amigos
É como cultivar flores

Eu como borboleta no mundo
Demoro a apreender esta imagem
Ah! Como tento pratica-la
E entender esta força da natureza que você é

Que nossas histórias continuem assim
Cada reencontro um começo
Cada dia um agora
Cada amanhã com seu passado

Um Beijo minha amiga

sábado, 16 de dezembro de 2017

A alma do falar

 

Olhando bem funda na alma
Vasculhando o vazio e suas falas
Nasci assim entre o sonho e a necessidade
Falo baixo porque minha voz é muito

Voz rouca temperada na loucura
Esconde meus braços de pegar o mundo
E não saber usa-lo
Sou um tronco na cidade bolha

Apenas uma metáfora da fala e do não saber
Ignoro um sorriso ontem porque hoje não sei de nada
Meus pés caminham por estradas que não conheço
E toda tentativa de ser assim é uma desnecessidade de alma

Porque ser é desprovido do querer ser

As musas se foram e me deixaram com a solidão e a fala
Descobri que os pássaros acordam com a luz branca
E os espectros encarnado do sol nascendo
É o despertar do dia no fogo de Hórus

Mas isso também não importa
Quando a fala cai no ouvido da gente
Ela tem a força da natureza
Tal como Marco Polo não falava trivialidades

Conversar com os pássaros é um privilégio da loucura
Assustadoramente encantador
Terrivelmente belo
Beleza apreciada por poucos e almejado no dia a dia

Estou escolhendo meu caminhar
Porque meu Norte é todos os pontos cardeais
E a liberdade dos pássaros me ensina a voar
Ensina a acordar para luz do sol

Eu que entendo as coisas envesadas
Contorço minhas palavras na tentativa
De dar cabo ao sonho e sua loucura amena
De ir vivendo este cotidiano

E predicado alguma de falar deste sujeito ordinário
Porque o cotidiano é filho do Cronos
Neto de gaia com sua beleza simples
Ele é cinza encarnado de todas as cores

É o bêbado que se levanta na esquina
E cruza com a senhora que volta do sacolão
São as folhas no quintal de uma velha
E ela só limpa a passagem

O cotidiano é assim
Extraordinariamente belo para quem tem olhos
Encantador para quem tem ouvidos
Sublime para quem vive o agora

Para quem vive no amanhã ou no ontem
Ele é cinza ... uma passagem para não vida
Desperdício terrível de se estar querendo viver
e não vive
Mas falar dele é perde-lo
Tal como areia não mão
Quanto mais se quer falar
Menos se sabe

A fala nasceu para endireita-lo
E ele é o que é
Por isso na alma da fala

Há o desejo dos que ouvem de verdade

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Natal

 

Quando criança
Achava que era a época que meu pai
Ficava mais feliz
E sempre me dava os melhores brinquedos do ano

Achava que as arvores de natal
Eram pequenos universos inexploráveis
E dava uma vontade de mexer em tudo
E não podia ... então eu a comia com os olhos

Quando criança
Adorava ver o menino Jesus
Deitando no seu berço de palha
E ele não estava triste como nas igrejas

Achava que os animais do presépio
Eram os brinquedos dele já desembalados
E quando ele chorava
Eu pega um escondido para nina-lo

Quando criança
No natal ... ouvia muitas vozes que não conhecia
Então, me calava para ouvir a musica
A musica que bate em cada peito que fala

Ouvia as histórias dos outros
Tendo a certeza de que eram minhas
Histórias de um tempo que não vivi
Mas presenciei todas pelas bocas cantantes

Hoje não tenho mas este natal
As arvores desbotaram no cotidiano cinza
Os brinquedos vejo nos olhos de meus filhos
O menino Jesus ... um símbolo de uma história minto antiga

Meu pai
Continua feliz no natal ... que bom!

Quando vejo os olhos de uma criança
Percebo um pequeno reflexo da memória
Sonhando para alem do possível
Olhando na falta o que não podemos ver

Deste poema se resta o obvio
É que o Natal ...

O natal ... é de todas as crianças

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A praia


A praia tem qualquer coisa do tempo
Do sol que penetra a escassa sombra
E ficamos assim com estes olhares perdidos
Na imensidão azul das águas distantes

Mar mãe de todas as coisas que vive
Eterno movimento
Ir e vir de energias solares
Que se faz presente nas ondas a quebrar

Areia que delimita meu caminhar
Vento que varre meu pensamento
É sempre um quando presente
Um agora curtido no sol

Esta sombra que me guarda
É o pouco que me resta
O nó desta vida que desata
Na mansidão serena

Eis que vão escorrendo pelas águas
Todos os pegue e pagues da vida
Todo desespero não passa de uma criança correndo
E a bola que não para ante sua querência

As coisas se diluem não necessidade
A temporalidade não é mais que areias
Rolando neste leve ventar
Que não venta de fato

É um afago na face dura do cimento
Um convite ao sono dos justos
Uma delicia para alem dos que sonham
Na leveza intransponível da existência

A praia de areias fofas
De movimentos únicos
Na sorte dos que projetam o futuro
Passos atentos de olhos distantes

Que todo conforto seja negado
Mas a sombra de uma praia

Esteja sempre acolhedora

sexta-feira, 29 de março de 2013

O jacaré

Tinha um jacaré por entre os prédios
Gritos nesta manhã morna
Tem um jacaré ali
olha!

Ele parado imóvel
Alheio ao espanto praiano
Um jacaré
Com toda sua arrogância de dentes rastejantes

A mãe cata o menino na rua
Como se o mundo fosse acabar
Nesta manhã insólita
Um jacaré por entre os prédios

Agora montou-se o palco da desordem
Um grupo chama os bombeiros
Alguns conversam amenidades
Com os olhos no jacaré é claro

Ele continua lá
Imóvel neste rio que corta os prédios
Um jacaré por entre os prédios
Majestoso jacaré do esgoto

Num dos prédios
Maravilhoso zoológico sem regras
Meninos engaiolados
Atiram pedras no pobre coitado

Perdi o medo de todo
Olhei nos olhos majestosos
E vi que sua imobilidade não era arrogancia
A arrogância era minha em não perceber antes

Ele estava morrendo
A quatro dias não chove
A água está densa
Reclamando ao pó o sopro da vida

Chorei neste palco da desordem
As pedras são a ponta desta violência
Corri os olhos no rio
E lá estava a verdadeira pedra

Rolando rio a baixo
Estrume acumulado de dias sem chuva

O cheiro de lavanda fica em casa
É claro
O resto é na descarga meu filho
Doença não quero em casa

Disse a boa mãe limpa e asseada
Somos então sujos por dentro?
Perguntou o menino perguntão

Não meu filho você é limpinho
O problema são os outros
as moscas
bactérias e vírus que não vemos

Lave bem a mão viu
O almoço tá na mesa

Como pode ser violenta esta imagem?
Quem há de me condenar?

Cresci e percebi o absurdo da limpeza extrema
Hoje choro por um jacaré
Que veio mostrar o sangue em minhas mãos
Não adianta lavar que não sai

Amanhã quem sabe
Eu morra num hospital branquinho
Dogrado, limpo e com o lençol trocado
E tolhido de minhas utimas palavras

Ao pó retornaremos
Do jacaré ao menino
Uns vão mais cegos que outros
Cegos para vida

Mortos vivos
que não viveram

E volta o menino perguntão

Mãe o jacaré me disse
Não tem jeito
O que o jacaré te disse meu filho?
Que a água tá suja e não adianta lavar não

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A voz e a flor

Poema dedicado a minha querida amiga
Priscila Kroupa

Ela é forte
a força primitiva da natureza
rocha inundada de sentimento
força de uma voz decidida

e a vastidão objetiva nos engole
o desencontro bate na porta
mas não entra nem entrará
porque ela acredita na vida

cultiva flores neste mundo de metal
sim ...
o mundo está florido
e sempre estará meus amigos

quando a porta se fecha
é hora de visitar a memória
redescobrir o já conhecido
cultivar o amor esquecido

parado no tempo
aquele que transbordou do copo
e ficou lá esperando
querendo sair qual quer hora

É tudo tão simples
que as vezes assusta
fica naquele tempo etéreo
de se enxergar tudo

e um nada saber de manhã

mas sabemos cá dentro
é isso que importa
não tem água para essa rocha
ela tem água na liga dos grãos

o eterno fica miúdo
diante da justeza de sua voz
e das flores que cultiva
como aquele coração de amor profundo

pequenas letras de amor
tão simples
que poeta algum há de alcançar
são flores nesta cidade cinza

e no fim minha amiga
perdoa estes olhos
esta vontade de exprimir o inexprimível
essa loucura demasiadamente sóbria

você sabe o caminho
força, paz e bem
minha querida amiga

domingo, 14 de outubro de 2012

O hotel

Entro no quarto como se fosse meu
o velho hotel perdido no espaço
vou jogado a mala com uma intimidade
de cheiros e abrir gavetas

arrumo meus pertences
passageiros pertences
no velho quarto que é meu
e de todos que aqui passaram

e passo assim despreocupado
que eu volto eu sempre volto
quantos verso não fiz nesta mesinha?
mesa velha e carcomida

quantas pessoas não vi passar
nestas janelas da vida?
lá estava um poeta
a espiar o dia

ah! esta cama arrumada
escondendo no branco lençol
vida e mais vidas passadas
dormidas ou sonhadas

e me sinto em casa
uma casa minha e de todos
a casa velha que não tive
os degraus de uma antiga escada

não troco este quarto por nada
nem hotel de cinco estrelas novinho

não tem cheiro de vidas passadas
nem identidades manchadas na parede
não é quarto
muito menos morada

estar em hotéis velhos
é quase estar em casa
sempre há vida pulsando
nos corredores e nos carpetes

pego o telefone
disco o numero da recepção
como quem liga para um velho amigo
uma voz rouca e conhecida

poi não?!
E eu translocado e contente
digo:

Ei amigo
 
linda esta vista lateral da janela
uma rua quieta e escura
iluminada pela luz da lua
a luz branca nas faces das pessoas que passam
me faz sentir a vida
não achas?

O senhor quer mudar de quarto?

Não jamais!

O senhor deseja mais alguma coisa?

Calei e percebi o absurdo
o absurdo de se estar sozinho
de amar a intimidade das coisas
perceber as pequenas coisas deslocando da vida

e lá no fundo
 
senhor

senhor

desliguei o telefone
tomei um belo gole de água
desarrumei a cama
e comecei a ler um bom livro

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Não sei fazer poemas de amor

E o padre disse:
Até que a morte os separe
Se há vida a pós a morte
porque ei de separar-me de meu amor?

Vinícius que não era um era vários
estava certo
é Amor que precisamos
Amor de todas as formas

Amar a vida e o destino
sim a difícil tarefa de amar o destino
Mas quando ama não tem jeito
não tem meio termo

Ama-se completo
por todas os cantos e beiradas
nas esquinas e ruas
ruelas e avenidas

Eis que existe amor nas ligas do asfalto
amor nas frutas das arvores
e na pressa dos pedestres
sempre atrasados para vida coitados

Amor nos olhares
nas rodas dos carros
nos pingos da chuva
no sorriso da criança

e só nos resta pegar este amor
percebe-lo escorrendo nas laterais da vida
inundando corações atentos
e é um Amar tanto que ultrapassa o verbo

perpassa pelos substantivos e preposições
Amar alem de qualquer interjeição
das virgulas aos pontos de interrogação
Amar completo todos os momentos

Amar é um estar na vida
e não passar por ela

sexta-feira, 16 de março de 2012

O motorista de ônibus

Um ponto de ônibus
uma parada
um sorriso
é tão bom quando um sorriso
inaugura o dia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Na aresta de um brinquedo

Quer botar o mundo na boca
Pedaço a pedaço
Aprende a selecionar
O que vai e o que fica

Vai meu filho
Sentir o mundo por dentro
Nas arestas de um brinquedo
Encontra mais verdades que todos os filósofos

Se é que filósofos encontram verdades

Na atesta do brinquedo
Seus olhos enxergam por dentro
Enxergam aquilo que esquecemos de ver
Um pedaço saboroso desse mundo repleto de pedaços

Pedaços azuis e vermelhos
O sabor da dureza e do macio
O leve verdadeiro e na medida do pesado
Os cantos inalcançados da ideia que é a coisa em si

Vai meu filho
Minhas palavras perdem a cor
Você mastiga o brinquedo com muito mais certeza

Vai meu filho
Me ensina a ver um mundo diferente a cada dia

sábado, 8 de outubro de 2011

Embalo na madrugada

Tão pequeno
e de olhos atentos
acorda o dia
e dorme com a madrugada

É tudo tão bom
choro risada
leite dormindo para sonhar
balança que segura nos ombros

olhos que nada escapam
o teto a parede a estante
partes de um mesmo lugar
de um mundo só visto por este pequenos olhos

que não escapam
a um ligeiro olhar
olhos nos olhos
olhos dorminhocos

estão fechando
hoje se foi amanhã quem sabe
a rotina não mostra outro mundo
repleto de novidades

que preguiça
arroto
sonha meu filho
amanhã iremos brincar com a vida

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Ao irmão Francisco

Feito de amor
na ultima hora
no ultimo suspiro
eis que estava ele a cantar
amando tudo na terra

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A casa em construção

A janela incompleta
não está aberta ou fechada
não tem onde apoiar os braços
muito menos os olhos

Ela é um buraco na parede
aquilo que podia ser
mas ficou nos limites
da comunicação perdida

o mundo fora dela
é um quadro imperfeito
com as bordas mal definidas
e um vazio solidão assombroso

o quarto fica assim meio perdido
voltado pro mundo real
sem sal material
início do fim

eu este visitante ladrão de cenas
encaro-me no espelho
e ele está embassado
do pó cimento das coisas

está casa são como todas as casas
tetos largos ou não é uma casa
construção nunca acabada
de revelias internas

ando por entre os comodos solitario
pra que tantos quartos?
e estes banheiros onde vão dar?
Acho que estou a esperar vsitas

Mas elas não vieram
a casa nunca acaba
está ali sempre pela metade
a espera dos que não vem

então no alge do consumo de mim
procuro a porta saida do que sou
e não há porta ... apenas paredes
e uma janela inacabada
que da para o mundo

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Novo mundo

o céu azulado
o sol a deitar-se devagar
a beleza de se estar vivo
inaugura um novo mundo

com Paz, Bem e Gentileza