terça-feira, 14 de julho de 2020

A borboleta e o trânsito




parem o transito
olhem ali voando uma borboleta
dessas que voam felizes
tão cheia de sonhos
           
mas como é
metal
cinza
e duro
essa cidade

A borboleta coitada
deusa do acaso e do improvável
vai ser esmagada
no transito, cinza metálico que passa

dou alguns passos
na minha solidão
de pedestre

o sinal abriu
abriu também no ar
o som de uma buzina apressada
e a borboleta ali voando
por entre os motores ligados

Ai que agonia!
Fecho os olhos pro pior
aperto o passo cabisbaixo
triste fim da borboleta

e por um instante
desses que o coração não se aguenta
olho pro lado
vejo a borboleta no alto
e acima dos carros e do chão

voando ao acaso
maestra da desarmonia
do cimento
borracha
e metal

Ai ! De novo uma agonia
um caminhão se aproxima
paro esperançoso na calçada
-         levante voo minha amiga

e no instante do acontecimento
no limite do agora pro que ainda vem
um para-brisa chapado
levou minha frágil deusa do acaso

Ah! se já não bastasse a morte
da borboleta solitária
seu assassino era um caminhão de flores

que ironia!

A cidade que compra flores mortas
não esquece de matar
borboletas vivas
sujando o vidro transparente
com matéria morta
que não vale
nada!



OBS: Este poema foi postado originalmente em 2012.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Amor virtual





Aquela curtida nas fotos
Uma piada bem comentada
As frases pseudofilosofias
Que nos faz sentir bem

Você está sorrindo de fato?
Não sei.
Esta tela não permite saber
"KKKK" não me diz nada

Como são cruéis estas onomatopeias
Me pego contando os ‘’K’’
Para saber o nível do teu sorriso
Contando os dias daquela resposta perdida

Outro dia vi um amigo comentando
"KKK" sem esboçar um sorriso
Ele me disse com cara mais deslavada
Que sorriu para dentro

Incrível a capacidade do ser humano de me surpreender
Sorrir para dentro
Chorar para dentro
Não que isso não seja possível é claro

É como se tornou comum
Silenciosos zumbis na sala de espera
Vez o outra um sussurro ... talvez de um meme
Perdidos olhos para lugar algum

Neste engano eis que vejo
Um jovem casal chegando
E tenciono escrever o contrario
Mas não posso

Logo se sentam
E cada qual no seu aparelho
Amam-se pelo espaço que não se tocam
Virtual amor dos solitários que amam a si mesmo

Reparando bem
Talvez seja um relacionamento virtual
Não sei ... como reconhecer os casais?
Ah! expectativa gera presunções

Talvez nunca soube reconhecer casais
No fundo é desnecessário saber reconhece-los
É arte antiga
Que está em desuso

O Amor agora é virtual
Está no espaço desta tela
Entre os olhos
E o desejo de que tudo seja real

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Poesia na guerra





Não foram um, nem dois e nem três
Foram oitenta tiros
Não foram uma, nem duas e nem três
Foram incontáveis mortes

O fascismo deu a cara no discurso
Aquele seu vizinho calado
Não tem mas a vergonha
De gritar: CPF cancelado

Cada morto
Cada esquina
Uma guerra anestesiada
Escondida nos discursos de deus

Covardes fascistas

Quando você apoia um fascista
Você se torna um
Não tem meio termo
Para estas pessoas

Não há cristão fascista
Não se enganem
Quem não respeita a diferença
Não merece respeito

O poeta vai a guerra
Armado de palavras
E um sonho de inspirar o outro
Para além do mal e do ódio

Eu me levanto com Maya Angelou
Ando nos mesmos trens de Solano trindade
Chorei com os olhos de Conceição Evaristo
E dancei na quadrilha de Lívia Natália

Vocês não passaram
Porque minha força vem de zumbi e Dandara
Que pariu seu mestiço na mata

Vocês não passaram
Porque dancei com mestre Bimba
A capoeira de todos os santos

Chega!
Vocês não passarão

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Poema à Ioná




Naná quando criança me chamava de Lam
Ela sempre ria de minhas palhaçadas
E era de uma sinceridade
Que assustava os adultos e os encantavam

Tinha uma seriedade amena
Uma força de encarar o mundo tranquilo
Que só as crianças geralmente tem
E sua gargalhada destruía nossas melancolias

Sorte daquele que já viu Naná sorrir
Paz nos corações aflitos
Ultimo refugio nas covas inocentes do sorriso
Asas protetoras em um mundo tão cruel

Ah! O mundo ... O mundo é grande e pequeno
E com propósitos e predicados
Que nos afastam ou aproximam
Quem vai saber do até quando ou até onde?

Passei anos distante minha amiga
Muitas águas passaram no rio de nossas vidas
Acompanhei de longe e torcendo
Por aquela simples torção que quase levou o mais belo sorriso

Quando Zé Galinha nos deixou
Lembro de estar na distância de uma varanda
Fumando um cigarro pensando que o mundo ficaria mais triste
 E não iria ver mais aquele abraço de lado e seu largo sorriso

Muitas águas se passaram minha amiga
Hoje nas contingências do mundo
Nos aproximamos de corpos e copos
E tenho a honra de ver seu sorriso

Você me ensinou que o perdão
Precisa de tempo pra perdoar
Que a atenção com os amigos
É como cultivar flores

Eu como borboleta no mundo
Demoro a apreender esta imagem
Ah! Como tento pratica-la
E entender esta força da natureza que você é

Que nossas histórias continuem assim
Cada reencontro um começo
Cada dia um agora
Cada amanhã com seu passado

Um Beijo minha amiga

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Poema ao Iguinho


“Tendo rido Deus, nasceram os sete deuses que governavam o mundo
Quando ele gargalhou fez-se a luz ...
Mas ele ri que tanto chora, e de suas lagrimas nasceu a alma.”
Autor Anônimo do século III

Quando Iguinho nasceu
Um anjo solto que vive na luz disse:
Vai Iguinho! ser estrela na vida

Ele não anda com os pés
Flutua com seu sorriso maroto
E sua alma leve e amena

Fala da carne como se a possuísse
Ou melhor ... fala de dentro
Porque é a melhor linguagem dos homens

Para aqueles que tem o privilégio
De observar seu sorriso
É um sorriso franco e destro

Pode parecer ironia
Mas é a mais pura ingenuidade
Descolando de seus lábios carnudos

As vezes ele sorri para dentro
Como um inglês a fazer piadas
Com a cara mais seria do mundo

E quando percebemos o deboche
A gargalhada é geral
Eis Iguinho sorrindo pra vida

Conhece os anglos dos humanos
Nossa luz ... nossa sombra
Seus olhos têm força e poesia

Ama a harmonia
Não com a superficialidade dos fotógrafos
Mas como um crente destemido

Querido amigo
Não foi fácil escrever esta poesia
Mas fica aí o meu recado

Um grande abraço
E viva as harmonias

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O amor fala





Estou amando
Claro como um raio de sol
Uma deusa que colhe versos
E acredita em deuses

Uma planta paciente e forte
Nasceu neste jardim de pedra
Suas folhas verdes caem da cama
Brincos somem na madrugada

O amor fala a linguagem dos bichos
Sua voz não carrega palavras
Sentido ... não há
Apenas movimentos acústicos que ressoam cá dentro

O amor não manda recados
Ele fala direto com o corpo
Como meio, meta e origem
Força bruta e frágil do estar vivo

O amor é tão singular
Que salta das beiradas do universal
E me torno barroco pra entender
Não entendo e salto no tempo

Vivo
Vivo
Rio
Rio
Frio
Frio
Cio
Io
O
Ohhhh

Amor
Minhas asas de borboletas não me deixam
Meus olhos de poeta me denunciam
Estou amando

O amor fala
E poucos estão capazes de escutar

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Trepando com a linguagem



Quando você tira suas reticencias
Meu coração acelera
Meus olhos fixos me denunciam

Lentamente você se despe dos paroxítonos
Um arrepio corre na espinha
Olhos semicerrados a procuram

E você má linguagem que é
Déspota deste coração de poeta
Me atiça com estas mesóclises bem encaixadas

Tiro todos os acentos a dentada
E chupo essa metáfora
Como se fosse uma mera função de linguagem

Agora passa da poesia à prosa
Vejo você escorrer por infindáveis discrições
O realismo fantástico se torna ordinário

Seus discursos ganham tons sintéticos
Que analise alguma a de definir

Você se abre em paráfrases
Eu agarro suas preposições como um animal selvagem

Você ofegando em verbos
Solta um gemido filosófico
E derruba três gramáticos da estante

Berra uma quadra
Ahnnnnnnn
Neologismo

Levanto a cabeça de poeta
E nos lábios decassílabos

Me olhas com a fúria de uma exclamação
Te ataco com todos os meus versos e rimas
E nos amamos ...

Depois
Desta perversão poética

Dou por mim
E você já vestiu todos os hifens
Calça dois parágrafos bem alinhados

Faz um abstract curto e preciso
“just business man!”

Lhe pago três virgulas e um acento
E fico a fumar meu cigarro eletrônico

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sonho perdido





A muito que não escrevo
Ficaram tristes as promessas
E longe os caminhos

Aquela nossa viagem
Nunca foi feita
Achei que poderia faze-lo sozinho
Treda ilusão

Ela entrou para rol das coisas irrealizáveis
Apenas isso
Um sonho perdido
Na gaveta junto a papeis velhos e alguns clipes

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Fala que é


Subo no palco de meus pés
Quero gritar para o mundo, mas ele é deserto
Não há ouvidos que me escutem
Nem bocas capazes de falar os altos tons universais

É tudo tão rude neste mundo de aparências
Que mal percebo a vastidão do mundo
A muito deixou de ter rimas
Mas continuamos procurando solução

Quando os sons saem pela boca
A fala se mistura com o poder
A tal ponto que confundem o poder com as palavras
As querências com os atos

Eu que não sei do mundo
Se não por este espelho torto
Eu ... amante das palavras
E sua música poderosa

Não posso arriscar um pronome se quer
Meu sujeito é verbo indefinido
Fora da gramatica ... sem rima
Preso no próprio discurso que evita

Amanhã ... quando a curva do tempo
Transformar esta língua em que falo
Em figuras nas cavernas da história
Alcançarei a inutilidade real

E nesta imagem vazia
Devaneio como um tolo
A buscar qual quer coisa que importe
Que importe

Insanidade do eterno ... cuspido pela curva do tempo
Fala que é
Não é
Tanto faz

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Sou poeta


Faz 10 anos que escrevo poemas
Será que já sou poeta?
Desde quando e até quando
Serei poeta?

Foi quando fiz meu primeiro verso ... primeira rima?!
Ou quando terminei o melhor de meus poemas?!
Não, já sei!
Foi quando percebi

Que ser e ser poeta é fingimento
Ou melhor é ser ator único
Estrelando uma peça só sua
E a plateia é mero acaso do mundo

Com o problema da gênese resolvido
Poeticamente é claro
Por que filosofo ou critico algum
Se daria ao trabalho

Voltemos a pergunta
E até quando serei poeta?
Pode se ser depois da morte?
Será este meu último poema?

Minha última cacofonia
Que balbucio sozinho
Nesta madrugada fria

Será este meu último poema?
E não farei mais versos
Porque são inúteis
Palavras que escapam da insônia de um mundo torto

Será este meu último poema?
Não porque morrerei amanhã
Mas porque não farei mais versos algum
Deixarei enfim o encanto e o desencanto de ser poeta

Sou poeta
Eu sei que não é muito
Mas é tão pouco que as palavras
Ficam com dó do ser poeta

É tão pouco
Que acabamos criando entidades morfológicas
Talvez para suprimir a solidão
Ou acabar com tédio de um mundo tão vazio

Sou poeta
Tenho em mim todos os sonhos do mundo
Não sou alegre não sou triste
Sou poeta

Posso parafrasear outros poetas
Sem medo de processos
Posso esticar os ouvidos dos puristas
E dizer assim solene aqui jaz um neologismo

Posso rir da cara dos críticos
Porque nunca ouvirei nada
Eles não nos entendem
E nem nós os entendemos

Sou poeta
Dentre tantas coisas no mundo nasci assim ... poeta
Pequeno de nascença,
Mas com o mundo inteiro a conquistar