terça-feira, 11 de março de 2014

A obra

Tijolo
Cimento
Argamassa

O pedreiro levanta um muro
O lado de dentro de um quarto qualquer
Um dentre centenas de quartos
Um tijolo dentre os milhares

Milhares pedreiros da obra
Mãos de cimento e suor
Criam espaços futuros

Crianças mimadas hão de rabiscar esta parede
Quadros irão enfeita-la
E esta rede há de me segurar

Estou apoiado em mãos anônimas
Anonimato imposto
Na política do esquecimento

Faz do obvio poesia

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Pixo

Quem assinou
O mural da fama dos anônimos?
Arte marginal
De um descontrutivismo alinhado

Filosofias que estão além
O mural da realidade há de suportar?
O rabisco?!
O traço da fama?!

Sou pixador
Questiono a beleza tradicional
Maquio lugares abandonados
Praças, esquinas esquecidas

Protegido pelo véu da noite
Imponho me autografo
Como um famoso decaído
Marco na pedra minha marca

Balanço a lata
E sou eu saltando pro infinito
Desenhando um A e um circulo
Escrevo frases para os cegos do dia

Ah! O dia veio
Sai de casa apressado
Para inauguração publica de minha arte
Meu outdoor anarquista

Sento em meu camarote
Peço uma água no bar da esquina
O tempo passa
E ninguém põe reparo nas nuanças delicadas da escrita

Eis que um velhinho sai da casa vizinha
Uma lata de tinta cinza
Pintou meu coração atrevido
Pintou toda esperança do mundo

Não posso falar a luz do dia
Mas vamos lutar
Eu com meu spray
Você com sua tinta

Amanhã pixo seu muro
Velho capitalista

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Carta do Ultimo Metafísico

A alma é um instante do querer
Ou melhor do desejar
A alma flutua no belo instante do desejo
Não na consumação da realidade

Nossa alma é moribunda de nascença
Não há Deus nem nada
Só este profundo vazio
Recheado de discursos vãos

O cético venceu meu camarada
Somos números
Somos nada
Um pequeno ponto na História do mundo

Que no fim
Acabará em silêncio
No profundo silêncio da morte
E boa viagem

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Tecnodepressivo

Tudo funcionando
Cada ponto na exata cor da figura
Vida de silício solitária
Com uma necessidade de acontecer
                                                                 Alem

Na tela
Uma imagem

Um não lugar
Que carrega minha existência
Carrega uma imagem que não é minha
Um eu que não existo

É sempre um quando
Uma necessidade momento do riso
Tropeço nas palavras
E no filete da vida
 
O grande mural vai passando
Na mesmice programada
Comentários de uma vida que não vivo
Uma depressão rasa

Ligeira tristeza
O suficiente para levantar da cama
O sol vai passando
E minha vida vai escorrendo nas pontas dos dedos

Viva La vida
E o tecnodepressivo

sábado, 26 de outubro de 2013

A Tragédia

A tragédia é nó na costura da vida
Um nó tão bem dado
Que as bordadeiras do destino
Cortam a linha
                               E guardam este pequeno emaranhado

É como o troféu roto da vida

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O silencio audível

Mãos que falam
Gestos que abrem mundo
Caiu toda rotina desta manhã morna
Dois casais surdos gesticulam liberdades

E tudo acontece além
Num plano linguístico ignorado
Ah! Quanto entendimento
No balé dos olhos
                                               Só eles enxergam de fato

Todos somos zumbis nesta sala de espera
Meus olhos perdem a cor ante suas realidades
Uma necessidade de ver
De ter na vista sua sobrevivência

Um imperturbável silencio os aflige
A demora é uma eternidade
Saber é um olhar angular
Nos olhos do fato da irrealidade

domingo, 22 de setembro de 2013

Espelho fosco

Não quero abstrações filosófica
Intangíveis
Aliterações demasiadas
Cacofonicas

Já me basta a palavra
Esta travessa
Que foge quando
a quero

quando menos espero
ela me salta aos olhos
e me toma a mente dizendo:
tu és meu!

sou aquele que busca a identidade
a união dos cacos
o falsear verídico do poema
metáforas que libertam o prisioneiro do real

por isso
cotidiano
simples
profundo
como um sentimento intransmissível
 
quase não sou poeta
é sempre um quase

no mais
viva La vida
e seus acasos

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Uma loja no shopping

As verdades descolam das paredes
 E caíram em meu colo
Enquanto olhava as pessoas
Em suas vidas diárias
 
As roupas
Todas querem olhar a vitrine
Todas querem ser
Vestidos de manequins
 
Boa tarde senhora
Fique a vontade
É tudo seu
Basta comprar
 
Eu quero um short
Uma blusa quem sabe?!
Entra senhora
Temos varias cores disponíveis
 
Não sei?!
Bota a mão no cabide
Experimenta
Desfila flutuando
 
Sua bolsa é nova
Toda vendedora põe reparo
Tubaroas da venda
E do varejo
 
Boa tarde
Um sorriso maquinal
Boa tarde
Posso ajudar o senhora?!
 
Sempre se pode ajudar
É tudo tão lindo
Mas este não caiu bem
Sinceridade carnívora
 
Experimenta este
Ah! este sim!
 
Mentira socialmente aceita
O sol lá fora queima
Aqui você está a salvo
É tudo sempre o mesmo
 
Um sorriso
É minha vez não vendeu
Perdeu
Roda a roleta do varejo
 
Esta eu passo
Mal vestida
Vou lá no estoque
Já volto querida
 
Eta má sorte
Quero ela de volta
De volta minha linda?!
O que a senhora deseja?
 
Nunca fui de fato
Vamos juntas
Tal como princesas sem reinos
Folhear felicidades de panos coloridos
 
Quanto é este?
O justo preço minha querida
Quanto vale sua vida?
E sua cresça nesta aparência abatida?
 
Tudo isso
Já basta minha senhora
 
Volte sempre
Estaremos aqui
No templo da futilidade
Prontas para encurtar o seu sonho

terça-feira, 23 de julho de 2013

Manifestações da minha solidão


Protesto contra minha autoridade
Contra este eu supremo do ego
Quem há de entender este ditador?

Protesto contra a solidão programada
Anúncios de praticidades alguma
Quem há de viver assim tão só?

Protesto contra as maquinas auto suficientes
Mentiras coloridas pela inocência
Quem há de ver todas as fotos?

Protesto aos que não sabem protestar
O grito não resolve tudo
Quem há de me condenar?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O tempo de Secchin

Poemas dedicado a Antônio Carlos Secchin
O seu dizer e redizer
é uma aventura para o portal do tempo e do
ser


A criança a espiar a janela
a ver o tempo amarelar tudo
por dentro das molduras
outros mundos
outras pulgas

No tempo de vovó
não tinha esta saudade a corroer
o feijão era bom
como nunca voltará a ser

nesta evolução de lugar algum
Eis que ficou a criança
a espiar tudo por de traz dos óculos

Dentro da criança
todos os mundos
todas as pulgas

E o mundo ficou a espiar a janela
vendo a criança amarelar tudo
dentro de vovó
ficou só a saudade do feijão

no mesmo mundo
nas mesmas pulgas

e tudo sempre foi sério
menos as pulgas
que eram tudo