sábado, 27 de outubro de 2012

Fla X Flu

Nelsinho disse
que nasceu 40 minutos antes do nada
mas para mim
é nada contra coisa nenhuma

Ah sim é claro
é circo
é um cala a boca diário e sutil
nos corações agoniados

domingo, 14 de outubro de 2012

O hotel

Entro no quarto como se fosse meu
o velho hotel perdido no espaço
vou jogado a mala com uma intimidade
de cheiros e abrir gavetas

arrumo meus pertences
passageiros pertences
no velho quarto que é meu
e de todos que aqui passaram

e passo assim despreocupado
que eu volto eu sempre volto
quantos verso não fiz nesta mesinha?
mesa velha e carcomida

quantas pessoas não vi passar
nestas janelas da vida?
lá estava um poeta
a espiar o dia

ah! esta cama arrumada
escondendo no branco lençol
vida e mais vidas passadas
dormidas ou sonhadas

e me sinto em casa
uma casa minha e de todos
a casa velha que não tive
os degraus de uma antiga escada

não troco este quarto por nada
nem hotel de cinco estrelas novinho

não tem cheiro de vidas passadas
nem identidades manchadas na parede
não é quarto
muito menos morada

estar em hotéis velhos
é quase estar em casa
sempre há vida pulsando
nos corredores e nos carpetes

pego o telefone
disco o numero da recepção
como quem liga para um velho amigo
uma voz rouca e conhecida

poi não?!
E eu translocado e contente
digo:

Ei amigo
 
linda esta vista lateral da janela
uma rua quieta e escura
iluminada pela luz da lua
a luz branca nas faces das pessoas que passam
me faz sentir a vida
não achas?

O senhor quer mudar de quarto?

Não jamais!

O senhor deseja mais alguma coisa?

Calei e percebi o absurdo
o absurdo de se estar sozinho
de amar a intimidade das coisas
perceber as pequenas coisas deslocando da vida

e lá no fundo
 
senhor

senhor

desliguei o telefone
tomei um belo gole de água
desarrumei a cama
e comecei a ler um bom livro

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A borboleta e o transito

parem o transito
olhem ali voando
uma borboleta
dessas que voam felizes
tão cheia de sonhos
 
mas como é
metal
cinza
e duro
essa cidade
 
A borboleta coitada
deusa do acaso e do improvável
vai ser esmagada
no cinza metálico
do transito que passa
 
dou alguns passos
na minha solidão
de pedestre
 
e lá está ela
a borboleta sonhadora
voando por entre os carros
nesse dia semi-engarrafado
 
o sinal abriu
abriu também no ar
o som de uma buzina apressada
e a borboleta ali voando
por entre os motores ligados
 
Ai que agonia!
Fecho os olhos pro pior
aperto o passo cabisbaixo
triste fim da borboleta
 
e por um instante
desses que o coração
não se aguenta
olho pro lado
vejo a borboleta no alto
e acima dos carros e do chão
 
voando ao acaso
maestra da desarmonia
do cimento
borracha
e metal
 
Ai ! De novo uma agonia
um caminhão se aproxima
paro esperançoso na calçada
- levante voo minha amiga
 
e no instante do acontecimento
no limite do agora
pro que ainda vem
um para-brisa chapado
levou minha frágil deusa do acaso
 
Ah! se já não bastasse a morte
da borboleta solitária
seu assassino era um caminhão de flores
 
que ironia!
 
A cidade que compra flores mortas
não esquece de matar
borboletas vivas
sujando o vidro transparente
com matéria morta
que não vale
nada
 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Não sei fazer poemas de amor

E o padre disse:
Até que a morte os separe
Se há vida a pós a morte
porque ei de separar-me de meu amor?

Vinícius que não era um era vários
estava certo
é Amor que precisamos
Amor de todas as formas

Amar a vida e o destino
sim a difícil tarefa de amar o destino
Mas quando ama não tem jeito
não tem meio termo

Ama-se completo
por todas os cantos e beiradas
nas esquinas e ruas
ruelas e avenidas

Eis que existe amor nas ligas do asfalto
amor nas frutas das arvores
e na pressa dos pedestres
sempre atrasados para vida coitados

Amor nos olhares
nas rodas dos carros
nos pingos da chuva
no sorriso da criança

e só nos resta pegar este amor
percebe-lo escorrendo nas laterais da vida
inundando corações atentos
e é um Amar tanto que ultrapassa o verbo

perpassa pelos substantivos e preposições
Amar alem de qualquer interjeição
das virgulas aos pontos de interrogação
Amar completo todos os momentos

Amar é um estar na vida
e não passar por ela